Durante muito tempo eu achei que estar em tudo me fazia importante. Eu validava tudo, assinava tudo, decidia tudo. E sentia um certo orgulho disso, como se a empresa precisasse de mim para respirar.

Hoje eu sei o nome daquilo: vaidade. E sei o preço também. Eu estava aprisionando o meu negócio e aprisionando gente muito talentosa que trabalhava comigo, gente que podia tomar decisões até melhores do que as minhas.

Se você precisa validar, assinar e decidir tudo, a sua empresa não tem gestão. Tem dependência. Esta carta é sobre como sair disso sem perder o controle.

Um teste honesto

Passe uma semana longe do seu negócio. Se vira caos, se tudo fica parado esperando você, o problema não é o time. É o desenho. Estar em tudo parece importância, mas na prática trava a empresa e impede as pessoas de crescer.

Felipe Jacoto na mesa, cercado de papéis, com o time esperando por ele

Delegar não é delargar

Delegar é passar uma função para alguém, um gerente, um gestor, uma pessoa do administrativo, e continuar acompanhando. Você valida e tem pontos de checagem.

Delargar é largar a função para se livrar da responsabilidade pela decisão.

E aqui tem uma verdade dura: quando você delarga e dá errado, a culpa não é de quem recebeu a função. É sua. Você não geriu, não acompanhou, não mediu, não deu os pontos de checagem para a pessoa saber se estava indo na direção certa.

A cadência que eu uso

Eu começo com um checkpoint por semana. Quem você contratou não é criança, então não é para ficar em cima. Mas toda semana vocês olham juntos o que passou a ser responsabilidade dela. Se a pessoa ainda está em treinamento, faz sentido estar mais perto.

Com o tempo, o espaço aumenta. Depende de como a pessoa se desenvolve e da cadeira que ela ocupa, mas costuma levar de seis meses a um ano:

  • No começo: semanal.
  • Quando ganha autonomia: quinzenal.
  • Com quem já provou: mensal.
  • Nunca: zero.

Eu nunca deixo de fazer. Porque tem uma coisa que só o dono sabe.

Felipe Jacoto alinhando o plano com o time

Só você sabe o plano inteiro

Você sabe para onde a empresa vai e quais números precisam ser perseguidos. O trabalho é fatiar isso. A meta do ano vira pedaços, e cada pedaço vai para um responsável, com meta, indicador e número a buscar. A soma das fatias constrói o todo.

É por isso que você se reúne com essas pessoas: para saber se estão chegando perto ou se dispersando. A área está acompanhando o que combinou? O resultado do semestre é o que foi traçado no começo do ano?

O pior cenário é sentar com um liderado e não saber o que cobrar. Isso gera insegurança até em quem está sendo liderado. Pouca coisa desanima mais um colaborador do que não ter meta, não saber onde precisa estar daqui a alguns meses.

Controle no número, não na mesa

Tem uma linha fina aqui. Dá para se perder controlando demais e travar a empresa do mesmo jeito.

Por isso as reuniões são curtas: meia hora, papo reto. O suficiente para dar direção sem virar gargalo nem passar a sensação de controlador. Você controla pelos números e pelas métricas, não em cima da pessoa, segurando cada decisão operacional ou financeira.

Para isso funcionar, você precisa ter claro:

  1. Quem é o responsável por cada fatia da estratégia.
  2. Quais são as metas.
  3. Quais são os indicadores.
  4. Com que frequência você vai acompanhar cada área.

Quando isso está de pé, a gestão deixa de ser microgerenciamento e vira sistema. E o sistema forma líderes que cuidam do que você construiu.

Firme, mas não controlador

Eu caí em todas essas armadilhas. Tive que largar a imagem de quem resolvia tudo e entender que o meu papel era outro: desenvolver pessoas e ser um líder que gera admiração.

Isso não me deixou menos exigente. Sou firme no que cobro e no jeito como falo, justamente para a pessoa assumir responsabilidade. Deixar alguém sem cobrança também faz mal.

Já ouvi de gente que trabalhava comigo: "manda essa pessoa embora". Em alguns desses casos eu dei espaço e liberdade. Essas pessoas se desenvolveram, executaram e hoje são grandes profissionais. Algumas trabalham comigo até hoje, outras saíram e voaram.

O que eu queria que você levasse

No fundo, a gente tem medo de errar e medo de deixar o outro errar. Mas quando o líder dá responsabilidade, acompanha e dá segurança para a pessoa executar, e eventualmente errar, ela cresce. E surpreende.

O sucesso de um negócio não está na dependência do dono. Está no ecossistema que ele constrói: que nasce dele, mas não depende dele.

Esse é o seu trabalho de dono.

Um abraço,
Felipe