Demorei para aceitar uma ideia que hoje eu repito sempre que posso: talvez o principal problema do seu negócio seja você.
Eu sei como isso soa. Dói na alma de quem criou. Você levantou a empresa do zero, abriu mão de muita coisa, e alguém vem dizer que você virou o teto, e não a ponte? Eu também reagi assim. Até perceber que era verdade comigo.
Ninguém vira teto por maldade
Quando o dono se torna o teto da empresa, não é porque é um líder ruim ou um fundador fraco. É porque não enxergou. A gente está correndo, querendo ganhar dinheiro, realizar o sonho, apagar o incêndio do dia. Não sobra tempo para olhar para dentro.
Só que a empresa cresce e cobra. Fica mais complexa, mais parruda, com mais responsabilidade. E o dono continua gerindo do mesmo jeito que geria quando eram três pessoas numa sala.
Os sinais
Se você se reconhece em mais de um destes, vale parar e olhar:
- A empresa cresceu, mas a forma de gerir é a mesma de anos atrás.
- Toda decisão importante ainda passa por você, e só por você.
- Quando algo dá errado, a culpa é sempre do funcionário, do mercado ou do governo.
- Faz tempo que você não escuta uma ideia nova de verdade.
- Você trabalha cada vez mais, e o resultado não acompanha.

O momento em que eu mais cresci
O momento em que eu mais cresci dentro da minha empresa foi quando eu saí dela.
Não estou falando de abandonar a função. Estou falando de sair da caixa. Buscar outras formas de pensar, outras formas de ouvir, gente que já tinha passado pelo que eu estava passando. Fui procurar e encontrei. Ainda encontro. E sinto que vou encontrar muito mais.
O que te levou do zero ao dez não é o que vai te levar do dez ao cinquenta, nem do cinquenta ao cem. Do zero ao dez foram as atitudes, os hábitos e as habilidades que você já tinha. Para o próximo patamar, você vai precisar se alimentar de ideias de outro patamar. Sentar em mesas diferentes.
Às vezes não é trocar de função. É trocar a lente.
Humildade com sagacidade
Isso começa com humildade, mas não para nela. É a sagacidade de se permitir não estar certo sempre. De perguntar: e se existir um jeito melhor do que o meu?
Não quer dizer aplicar tudo o que você ouve. Quer dizer ouvir. A forma como um cliente meu gerencia o negócio dele pode me dar a ideia de um sistema que reduz um custo ou aumenta a minha margem. Se eu não estiver no lugar de quem escuta, eu perco isso.
Quando eu olho para trás, fica claro. Se eu tivesse ficado só dentro da minha empresa, ela talvez nem existisse mais: a inteligência artificial está mudando por inteiro o nosso negócio, que é de tecnologia, marketing e gestão. Se eu gerisse as pessoas do jeito como fui gerido nos meus primeiros empregos, muita gente não estaria mais comigo. Se eu analisasse os números do jeito que aprendi no curso de pacote Office, não teria a velocidade e a profundidade que tenho hoje. Tudo isso eu aprendi saindo de onde estava.

A armadilha do ego
A maior armadilha mental de um gestor é o ego. Ele procura culpado em tudo: no funcionário, no sistema, no mercado, no governo. Só não olha no espelho.
E a frase mais difícil de dizer é a mais simples: eu preciso mudar para os meus resultados mudarem. Se você não muda, se a sua gestão não muda, se o seu olhar não muda, a sua empresa também não muda.
Para o CNPJ mudar, mude o CPF
Talvez a maior transformação que eu vivi nos últimos três ou quatro anos tenha sido entender isto: para um CNPJ mudar, precisa mudar o CPF que opera esse CNPJ.
A empresa é a soma de vários CPFs. O resultado dela é o reflexo do nível de cada pessoa que trabalha ali, a começar por você. Se quiser um termômetro, faça um score de cada colaborador. A média vai mostrar com bastante precisão o nível real da sua empresa.
O resultado do CNPJ é fruto do nível de cada CPF.
Chega uma hora em que trabalhar mais, ou trabalhar sozinho, não resolve. Você precisa entender de gestão, de número, de pessoas, de processo e de cultura. E aprender a conviver com decisões diferentes das suas, aquelas que você estava acostumado a tomar sozinho. Ouvir a ideia que não te agrada, mas que talvez seja a melhor para o negócio.
Um exercício para esta semana
Se a sua empresa está parada no mesmo lugar, eu te proponho uma coisa simples:
- Pergunte a si mesmo, com honestidade: a empresa não está só refletindo quem eu sou hoje?
- Escolha uma mesa diferente para sentar este mês: uma imersão de negócio, a visita a um cliente, um café com um amigo que também tem empresa.
- Vá para ouvir, não para convencer. Anote o que ele faz de diferente.
- Volte e escolha uma única coisa para testar.
Talvez a sua empresa não precise mudar de negócio, de mercado ou de visão. Talvez ela só precise de um novo líder no comando da nave. E esse novo líder pode ser você, com outras habilidades de pilotagem.
Um abraço,
Felipe